Confederação Brasileira de Golfe

Caminhos da sedução

04 de maio de 2010

POR MARCO FRENETTE*

Os sinais externos da paixão que o golfista nutre pelo jogo são mais que evidentes. O golfe é jogado sobre a neve, na sala das casas, nos topos de prédios e montanhas, dentro de estacionamentos, em dias santos, em dias de trabalho, de madrugada, à noite, em plataformas de petróleo; e até nos sonhos e divagações de todo tipo de pessoa – a exemplo do coronel norte-americano George Hall, que após cinco anos e meio como prisioneiro no Vietnã, foi libertado e jogou novamente seu handicap: 4. Isso porque, no cativeiro, em condições insalubres e desumanas, jogava partidas mentais diariamente.

Porém, se é fácil identificar no comportamento compulsivo do golfista a força que o move, é um pouco mais complicado entender como funciona o emaranhado psíquico-emocional que compõe esse amor pelo golfe. Um dos primeiros autores a tratar do tema da sedução do golfe foi o canadense Arnold Haultain, um literato com vasta experiência na arte do texto, tendo publicado livros que vão de temas como o amor até a guerra do Sudão. Em 1908, em The Mystery of Golf, Haultain abordou o jogo sob todos os aspectos, desde a parte técnica, tão necessária para a eterna busca do swing perfeito, até os efeitos psicológicos causados pelo jogo.

Sempre com um approach filosófico, ele dá os contornos de uma paixão que “parece idiota aos olhos de quem não a compartilha, mas que tem uma dimensão surpreendente”. É uma abordagem com profundidade e elegância sobre os mistérios que cercam o golfe… mas daí você termina o livro, se encanta com o estilo admirável do autor, mas permanece mais ou menos na mesma, sabendo apenas que o golfe desperta em seus praticantes o que o poeta irlandês William Butler Yeats chamou (ao tratar, claro, de temas menos mundanos como o teatro e a poesia lírica) de “a fascinação do que é difícil”. Anos depois, em 1912, surgiria o também especial The Soul of Golf, de Pembroke A. Vaile, um escritor profícuo que produziu mais de uma dúzia de títulos entre 1909 e 1935.

Nessa obra vemos o mesmo esforço anteriormente empreendido por Haultain para compreender os labirintos da alma do golfista – e, de novo, o mistério permanece ao redor de muitas descrições dos prazeres e emoções do jogo.

Talvez quem mais se aproximou até agora de um entendimento sobre o poder de sedução do golfe foi a classe dos arquitetos de campos. Ao descreverem em seus livros quais são as armadilhas e as ilusões que seus desenhos devem causar, terminam por apresentar parte da solução do enigma. “Um traçado deve despertar os mais profundos sentimentos no golfista. Ele deve temer, se alegrar, se entristecer e buscar forças em seu interior para vencer os obstáculos que o campo oferece. Golfe é um jogo de auto-superação por meio da estratégia”, afirmou Tom Fazio, autor de Golf Course Designs.

Já Robert Trent Jones, Jr., em seu esplêndido Golf by Design, mostra bastante toda a trama: “Assim como o xadrez, o golfe é um jogo de ataque e defesa, onde acontece uma batalha silenciosa – com uma ou outra explosão – , onde o arquiteto assume o papel de defensor contra as investidas do jogador. Uma boa forma de jogar golfe é estar atento aos mistérios, armadilhas e desafios inesperados que foram especialmente preparados para sabotar seu jogo”. 

Esse talvez seja o ponto: o golfe têm um sabor de aventura na qual lutamos contra sabotagens e o medo de não ser feliz. É uma espécie de simulacro da vida, onde as incertezas estão sempre presentes. Harvey Pennick, o lendário professor e autor do não menos famoso O Pequeno Livro Vermelho do Golfe, tinha uma visão realista: “Assim como na vida, no golfe não há nada garantidamente justo. Você pode dar uma excelente tacada e a bola rolar para um lugar ruim, enquanto outro pode pegar mal na bola e ela correr para o meio do fairway e ficar muito bem posicionada”.

Com uma série de pequenas incertezas a rondar seu jogo, o golfista começa a entender o delicado – e tantas vezes inalcançável – equilíbrio necessário entre a parte psicológica e física para se jogar um bom golfe. Noutras palavras, esse jogo nos revela o quanto somos infantis, e como é longo o caminho para a verdadeira maturidade.

Os orientais tendem a ver esse aspecto intangível de modo mais claro. “O golfe é uma luta contra o ego. O ego é um dos grandes responsáveis pelos handicaps altos. Quando meu ego quer bater um drive reto e poderoso para se exibir, a bola mal passa do tee feminino”, resume Marvin Harada, golfista há duas décadas e reverendo da Orange County Buddhist Church. Para os mais preocupados com a evolução espiritual, esse aspecto de autocontrole e conflitos internos pode ser o maior atrativo do golfe e seu maior elemento de sedução. 

Não que os ocidentais não tenham preocupações que ultrapassem a técnica e o físico. O golfe americano e europeu têm muitas estrelas que usam a psicologia e a psicanálise para convencer os pros de que não há razão nenhuma para terem medo de bater numa pequena bola branca. Aqui há o charme do alto desempenho, a paixão pela perfeição e a adrenalina. “Um golfista com grandes sonhos pode conseguir grandes coisas, enquanto que um golfista com sonhos medíocres conseguirá coisas igualmente medíocres”, sentencia Bob Rotella, autor do tão falado e pouco lido O Golfe Não é um Jogo para Perfeccionistas, uma obra movida movida pela paixão da superação.

O golfe também tem elementos de sobra para aqueles que se deixam encantar pelos aspectos racionais e matemáticos do jogo. As estratégias, as especificações técnicas dos equipamentos, as estatísticas de jogo; tudo pode convergir para estudos inusitados e diversões pautadas pelo cálculo e pelas leis imutáveis da natureza. “Sou físico de formação, e quando comecei a jogar golfe, senti a necessidade de entender esse jogo por meio de coisas como as leis de Newton e descobertas de Galileo. Desse modo, o golfe ficou muito mais divertido para mim”, afirma o estudioso Theodore P. Jorgensen, autor do The Physics of Golf, onde descobrimos a lógica de coisas como um backswing mais curto gerar a mesma energia de um backswing mais longo. Aqui, a sedução do golfe tem a ver com desempenho intelectual.

Entretanto, para além de todos os prazeres e seduções mais sutis, há os fatos óbvios e encantadores do golfe: o contato com a natureza, a convivência social, o glamour, as festas – toda uma “roupagem” a esconder sutilezas, sensações e possibilidades de evolução que não são revelados a todos que decidem frequentar um clube de golfe. Mas mesmo os que não têm condições perceptivas para aproveitar as riquezas imateriais, divertem-se muito com a riqueza material desse jogo. O golfe se cobre com o manto do elitismo, mas seu espírito é democrático.
 

* Marco Frenette é escritor, golfista e editor da revista Golf Life.

O ponto de vista dos colunistas não expressa necessariamente a opinião da CBG.

 

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