Fecong
Viabilidade de um campo de golfe inserido em empreendimento turístico ou habitacional.
Neste momento em que inúmeros empreendimentos com campos de golfe surgem no Brasil o tema da viabilidade ainda é muito presente e merece algumas reflexões.
Os conceitos expostos a seguir são frutos de treze anos trabalhando junto a empreendimentos turísticos com campo de golfe, seja como consultor ou como administrador de diversos empreendimentos e também bastante influenciados por uma serie de conversas com Peter Walton um verdadeiro papa em turismo de golfe.
A analise de viabilidade de um campo de golfe incluído em um resort ou voltado para o uso de turistas não pode se restringir a uma simples conta de receita x despesa.
Se formos estabelecer um comparativo de um campo de golfe com outros equipamentos de um empreendimento turístico ou habitacional, forçoso é concluirmos que se parece muito mais com um centro de convenções do que com um conjunto de quartos de hotel.
Vamos ser mais explícitos: para analisar a viabilidade de um conjunto de quartos de um hotel temos que verificar a sua ocupação, o que define a receita relacionada a esta ocupação e sua despesa com manutenção, a operação das camareiras, as despesas com materiais operacionais, insumos etc. alem é claro do custo do investimento.
Para analisarmos a viabilidade de um conjunto de salões de convenções de um hotel ou mesmo de um centro de convenções em uma cidade não podemos usar apenas a receita com a locação das salas e as despesas de manutenção operação e investimento. Se assim fosse certamente concluiríamos pela inviabilidade de todos os salões e centros de convenções existentes.
Parece-me obvio que a analise de viabilidade de um centro de convenções é muito mais complexa e está relacionada aos retornos que este proporciona a tudo que esta em sua volta. Então o centro de convenções é muito mais um catalisador e potencializador de retornos do que um centro de receitas que deva dar lucro por si.
Para mim um campo de golfe deve ser analisado semelhantemente a um centro de convenções, ou seja, como um equipamento de existência essencial quando se trata de turismo de alto nível e como elemento alavancador de grupos e eventos.
Poderia apresentar inúmeros exemplos, porem vou apresentar apenas um: uma determinada empresa somente realiza eventos onde exista um campo de golfe de bom nível porque considera este um equipamento importante na sua estratégia de networking. Esta empresa gera para o hotel que abriga seus eventos 10.000 room nights por ano alem das receitas de A&B etc. Para o golfe gera uma quantia irrisória, porem o golfe é importante não por esta quantia irrisória, mas porque sem ele o grande evento não aconteceria neste local.
Portanto quando se trata de um empreendimento turístico de alto nível ou de um cluster turístico de categoria internacional o campo de golfe deve existir e sua viabilidade ai se encerra. Da mesma forma que deve existir um bom centro de convenções.
Vamos então passar para o segundo estagio de discussão. Já que temos um campo de golfe, e que sua existência é essencial para potencializar todo o meu conjunto, devo trabalhar para que ele seja o mais útil possível e isto eu vou conseguir aumentando a ocupação do mesmo e reduzindo a carga financeira que o mesmo representa para o conjunto em questão. Temos que aperfeiçoar o investimento ate para garantir uma qualidade maior na manutenção do campo de golfe.
Uma vez que a existência do campo de golfe não esta relacionada diretamente com a sua ocupação, ou seja, não é o numero de golfistas clientes que ira determinar a construção de um campo de golfe é de se esperar uma oferta de campos muito maior que a procura.
Golfista não se cria de uma hora para outra e também esta não é tarefa do empreendedor, mas sim das entidades que dirigem o esporte. O primeiro alvo a ser buscado é o mercado internacional onde o golfista já existe e nossa parte é captá-lo primeiramente para o nosso pais, para nossa região e para nosso empreendimento e para tanto o caminho natural já consagrado e a valorização dos órgãos de fomento como o Bureau Brasileiro de Turismo de Golfe capacitando-o a buscar este mercado lá fora.
Esta será uma estratégia muito melhor do que cair em uma guerra de preços com os demais empreendimentos na disputa de um minúsculo mercado nacional.
Quando falamos de um campo de golfe em um condomínio de residências, temos duas medidas a tomar: primeiramente abrir o campo para o uso de golfistas locais não moradores que trarão movimento e receita importante para o campo e por outro lado uma vez que a estatística nos mostra que 95 % dos moradores em condomínios não são golfistas, muito justo será cobrar dos lotes e moradias uma taxa de paisagem ou algo semelhante que canalize uma parte da taxa de condomínio para os custos de manutenção do campo. Isto será a real garantia de que este não golfista terá um belo jardim a sua frente pelo resto da vida. Isto ainda não faz parte da cultura de nossos condomínios e certamente se enfrentarão resistências, porem com o passar do tempo e a troca de experiências se tornara’ uma realidade utilíssima aos nossos campos de condomínio.
Com o tempo o numero de golfistas ira aumentar (nossa taxa de crescimento é de cerca de 15%) em grande parte incentivados pela simples existência destes campos de golfe abertos ao publico, mas a nossa necessidade é imediata e não futura.
Como equipamento essencial, como um centro de convenções, um campo de golfe deve ser alvo de incentivos por parte dos governos estaduais e municipais pois ele potencializara o turismo do local gerando renda e emprego. Isto também não faz, nem de longe parte da cultura de nossos governantes, e deve ser uma das tarefas do Bureau Brasileiro de Turismo de Golfe interceder junto aos órgãos governamentais competentes num trabalho de esclarecimento e conscientização, procurando traduzir a importância do incentivo à construção de um campo de golfe para o turismo local. Tudo tem que ter um começo. Da mesma forma que há cinco anos atrás não se falava de turismo de golfe no Brasil e hoje já é uma atividade incentivada inclusive por verbas governamentais para a promoção do turismo, da mesma forma temos que tratar de viabilizar também os incentivos aos empreendimentos com golfe. Isto poderá se dar de diversas maneiras e cada governo municipal ou estadual poderá buscar soluções criativas para tanto. Um primeiro passo é a introdução do assunto no planejamento urbano e turístico das cidades.
Da mesma forma compete também, principalmente aos governos municipais identificar nas cidades os campos de golfe que se abrem ao publico em geral incentivando e promovendo os mesmos como se fosse um equipamento turístico da municipalidade. Com isto ganha não somente o empreendimento através da receita que captara, mas também o município que terá uma alternativa a mais para oferecer e o turista que será atendido na sua necessidade.
Finalizando; se cada parte: empreendedor, governo e órgãos de fomento fizerem sua parte estaremos caminhando mais aceleradamente para um futuro promissor do turismo e dos negócios de golfe em nosso Brasil.
Celso Teixeira é engenheiro civil formado pela escola politécnica da USP e consultor de turismo de golfe.
Contatos: cteixeira@golftravel.com.br
Setembro – 2005 |